Domingo, 24 de Outubro de 2021 13:15
(49) 99173 6876
Superação Superação

Descansense relata luta contra Covid-19

Segundo a jovem, o vírus “não é brincadeira, é algo bem sério, as vezes a gente não dá o devido valor porque não acontece com ninguém perto”

10/10/2021 08h10 Atualizada há 1 semana
826
Por: Redacao
Depois de 18 dias internada na UTI, Raquel Pellin volta para casa e recebe o carinho de familiares e amigos (Fotos: Arquivo Pessoal)
Depois de 18 dias internada na UTI, Raquel Pellin volta para casa e recebe o carinho de familiares e amigos (Fotos: Arquivo Pessoal)

Há quase dois anos do primeiro caso registrado aqui no Brasil e mais de 90 milhões de pessoas totalmente vacinadas, a de Covid-19 ainda faz vítimas. Conforme dados oficiais, já foram registrados mais de 21,5 milhões de casos e quase 600 mil mortes no país. Em Santa Catarina foram 1,19 milhões de casos e mais de 19 mil mortes. Aqui em Descanso já são mais de 1.200 pessoas infectadas, e desses 20 óbitos.

A jovem Raquel Pellin, 28 anos, também está nas estatísticas de positivados da Covid-19 e viu seu quadro agravar depois de alguns sintomas. “Eu tinha os sintomas já fazia uns três dias e por via das dúvidas fui fazer o teste particular na sexta-feira, 4 de junho. Era ponto facultativo aqui em Descanso, o posto de Saúde estava fechado, logo depois que eu testei positivo fui até o hospital buscar atendimento e como eles estavam em uma situação caótica me pediram para tomar medicação em casa e caso eu piorasse era para voltar ao hospital”, relata Raquel.

“No início tinha dor de cabeça, no fundo dos olhos, um pouquinho de febre e depois, com o passar dos dias, os sintomas foram aumentando e a febre ficou mais forte. Começou a tosse e no domingo senti um chiado no pulmão, foi aí que comecei a me preocupar. Na segunda-feira fui ao Posto de Saúde, recebi atendimento somente na parte da tarde, ali diagnosticaram que meu pulmão estava comprometido, estava no limite, foram as palavras que o médico usou”, lembra.

“Mesmo assim ele pediu para eu voltar para casa, me deu um tratamento mais intenso e qualquer sinal de falta de ar era para voltar a procurar ajuda médica. Nesse dia fui para a casa dos meus pais, até então eu estava na minha casa sozinha. Assim, eles ficaram me monitorando, compramos um aparelho que mede a saturação e durante a noite da terça-feira ficamos controlando como estava. Quando dava tosse, ela abaixava bastante. Na quarta-feira de manhã procuramos ajuda médica de novo, foi então que fiquei internada aqui em Descanso”, narra.

No hospital de Descanso, Raquel conta que ficou internada de 8 a 10 de junho. “Na quinta-feira, dia 10, fui para São Miguel do Oeste fazer uma tomografia e segundo as enfermeiras falaram para a minha família, eu passei mal já no caminho, a saturação baixou a 45, foi um milagre eu ter sobrevivido ali. Chegando no hospital regional fizeram o exame e a médica que me acompanhou preferiu que eu ficasse lá porque já estava com os pulmões bem comprometidos, pois na madrugada para o dia 11 já precisei ser intubada”.

Raquel ficou intubada por 17 dias e saiu da UTI dia 29 de junho quando foi transferida para a enfermaria. “Eu vi pessoas serem entubadas na minha frente, pessoas se despedindo das famílias e quando vi que a minha família estava ali pensei que não ia mais voltar, que iria morrer. Eu pedi muito para minha mãe cuidar do meu pai porque ele já estava sem comer quando soube que eu positivei, eu tinha medo por ele. A minha mãe é uma pessoa de muita fé, muito forte, eles são minha base meu tudo”, diz.

“No início a gente sente ansiedade, mas eles me explicaram que eu iria ser sedada e não iria sentir nada, mas aos poucos eles vão tentando tirar essa sedação para poder tirar o tubo e ver como o paciente reage e nessa diminuição dos sedativos. Lembro de ter lapsos de consciência, de lembranças, de sentimentos, tanto é que eu tenho os áudios das médicas que conversavam com os meus pais todos os dias e relatavam o que acontecia.  Têm relatos delas que eu soltava lágrimas e eu não recordo disso. As visitas da minha mãe, Ivanilde, ela fez três, eram semanais. Recordo da última que ela veio na sexta-feira, lembro de tudo o que ela me falou. Lembro das enfermeiras falando da minha tatuagem, elas cuidavam do meu cabelo, faziam tranças, quando elas puxavam para fazer tranças sentia dor, então conforme iam diminuindo a sedação eu sentia algumas coisas”, lembra.

Depois de todos esses dias de luta contra a Covid-19, Raquel sentiu o carinho das pessoas e passou a dar mais valor as coisas simples da vida. “É tão bom sentir que você é amada, que oraram por você. Além de enxergar a vida com outros olhos, dar mais valor a tudo, a pequenas coisas, porque esse tempo que você acaba ficando ali, você precisa aprender a fazer tudo de novo. Quando saí da UTI não sabia mais caminhar, não comia e nem tomava banho sozinha, dependia das outras pessoas para tudo. Um banho de chuveiro é maravilhoso, fiquei 18 dias sem tomar, era só banho de leito. Precisamos aprender a dar valor nos pequenos detalhes, para as coisas mínimas, ver tudo com olhos diferentes”, enaltece.

No segundo dia após acordar do coma, Raquel já quis levantar, com muita dificuldade e ajuda dos enfermeiros foi caminhando até ao banheiro. “Era um caminhar se arrastando, um segurando de um lado e mais um profissional do outro. Voltei para casa caminhando também, mas com bastante dificuldades, tinha que me agarrar em alguém, em alguma coisa, mas devagarinho fiz fisioterapia, foram 20 sessões e graças a Deus logo consegui ter vida normal”, comemora.

Diferente de muitas pessoas que acabam sofrendo com sequelas deixadas pelo Coronavírus, Raquel só tem a agradecer por estar bem e normal. Não fiquei com sequelas depois da Covid, eu fiz um acompanhamento com um especialista pneumologista em São Miguel do Oeste e ele pediu alguns exames de Espirometria e Tomografia para ver se havia ficado alguma sequela. Ainda bem que não fiquei com nada, não preciso de nenhum medicamento”.

A volta para casa foi emocionante. “Quando chegamos na estrada que dava acesso a casa já comecei a chorar e ao entrar em casa, meu irmão com a minha afiliada, minha cunhada, meu primo, meus avós, todo mundo lá me esperando com um cartaz enorme na parede, foi muito lindo, inclusive, a cesta dos meus colegas de trabalho, foi emocionante, chorei muito, mas de felicidade com certeza”, conta Raquel.

O retorno ao trabalho, no Supermercado Comin, não foi diferente. “Chorei também! O pessoal fez um cartaz de boas-vindas. Além de sempre ligar enquanto eu estava no hospital, vieram me visitar lá em casa também, foi maravilhoso poder voltar, não via a hora”, comemora.

Para as pessoas, Raquel deixa um recado de conscientização. “A Covid não é brincadeira, é algo bem sério, as vezes a gente não dá o devido valor porque não acontece com ninguém perto, mas a partir do momento que é com alguém próximo de ti, alguém que você goste, que conhece, você passa a sentir mais. Por isso, peço para as pessoas se cuidarem, não acabou ainda. A vacina está aí para ajudar, vamos tomar a vacina, não é questão política, é de saúde mesmo. Não vamos brincar, porque não foram todos que tiveram a mesma sorte que eu tive de poder voltar. Muitas famílias perderam seus entes queridos e é um vazio que fica. Eu me coloco no lugar dessas famílias, é uma tristeza enorme em saber que vidas foram ceifadas por esse vírus e tem muita gente que leva isso na brincadeira, é bem triste pensar nisso”, reitera.

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias